
” Você mede a grandeza de um homem pela quantidade de coisas que ele aguenta.”
Esta frase, é do meu Si Taai Gung, Moy Yat. A primeira vez que a ouvi, foi em uma palestra do meu Si Fu. Fiquei encantado com a frase, me dispus imediatamente a torná-la prática.
Passaram-se alguns anos desde que ouvi esta frase pela primeira vez. Até hoje, ouvi mais de uma vez. A última foi recentemente, de novo proferida por Si Fu.
Toda vez que ouço, eu renovo o compromisso que fiz comigo, curiosamente ou não, ela é dita sempre que preciso ouvir.
Suspeito que a questão não seja metafísica, seja pura e simplesmente uma necessidade pessoal. Faz parte de mim, intrínseco. De tal forma que talvez eu tenha dado um significado diferente das vezes todas que ouvi.

Sabemos que o estudo da Níveis Superiores tem alto nível de simbolismo, em um passado distante, entendi que simbolismo era como algum tipo de brincadeira. Como se não fosse de verdade.
Ontem, eu estava diante do meu Si Fu, ele com dois pedaços de plástico na mão, que simbolizavam o Baat Jaam Do. Acreditem, ali não havia nenhum nível de brincadeira. Em momento algum tive dúvida de que se houvesse qualquer movimento em falso de minha parte eu realmente me machucaria.
Contudo, não me machuquei, e eu errei, errei mais de uma vez. Há uma energia quando se dispõe do Baat Jaam Do, seja ele do material que for. Essa energia assassina não precisa matar, apesar de deixar claro que poderia.
Agora eu estava com o Baat Jaam Do, sabendo o que deveria fazer, me guardei totalmente atrás do instrumento, absolutamente pronto. Para minha surpresa, percebi que poderia usá-lo.
Usar para que?
Estava diante do meu Si Fu, não queria, de maneira alguma, nem mesmo lidar com o risco de machucar; mesmo assim, naquela ocasião,havia risco. A tensão era tamanha e densa que tive a impressão de ser capaz de segurá-la. Aí entrei em crise, minutos antes, quando ele tinha o Baat Jaam Do, apesar do medo, eu estava tranquilo. Desta vez foi bem diferente.
Pela primeira vez desde que me lembro, segurava com parte das minhas forças uma arma. A outra parte segurava as lágrimas, na esperança de que caso fosse bem sucedido, não desistisse.
Lutei, não contra meu Si Fu. Mas contra mim, melhor dizendo, comigo.

Esta luta vivida ontem me fez crescer. Acredito que hoje sou um homem um pouco mais “grandioso,” como talvez quisesse dizer meu Si Taai Gung.
Como disse, entendi a frase de patriarca Moy Yat de várias maneiras, uma delas foi achar que o importante era aguentar pancadas. Talvez por isso, tenha recebido o apelido carinhoso de “Dublê do Méier,” dada a minha disponibilidade em participar de demonstrações.
Hoje, creio que só isso não basta. Levantar depois que me derrubaram, até hoje, não foi um grande problema para mim. Meu problema é me manter de pé, enquanto eu próprio me derrubo.
A pratica do Siu Nim Tau é íntima. Considerando tudo que há em volta, fazemos um mergulho profundo em nós mesmos. Nem sempre é agradável.
Acontece que na maioria das vezes colocamos grandes expectativas sobre nós mesmos, a medida que a prática evolui, percebemos que não somos capazes de cumprir essa expectativa, neste momento, nossa prática pode ser frustrante, inclusive, porquê não adianta entregar a responsabilidade pelo eventual fracasso no outro.
Siu Nim Tau, está sendo um teste para minha coragem, no sentido de saber se de fato quero enfrentar meus demônios.
A experiência que tive relatada acima, foi gerada pelo Si Fu. Ele disse que eu deveria golpeá-lo, ele me atacou, me despontando uma reação. Ele me fez perceber que é possível morrer e matar. Siu nim Tau é meu, eu me percebo, estímulo, e identifico o que não me ajuda a me desenvolver enquanto ser humano.
Então, neste caso, eu devo me perceber, para em seguida me provocar uma reação e assim golpear o que preciso for; isso dói. No fim, devo ser capaz de matar e ao mesmo tempo, não poderia ser diferente, ser morto, simbolicamente, por mim. Extinguindo assim o que me impede de evoluir.
Matar e morrer não são ações simples, em nenhum sentido.
Por isso, eu digo que também é possível medir a grandeza de um homem pela maneira como ele se percebe, e se refaz.
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