
O que é claro é visível, escuro, invisível. Partindo desta proposição, não é difícil entender que há muito mais de escuro que claro.
Certa vez, ouvi Si Fu dizer que era estranha a ideia de dia, já que na maior parte do universo é escuro.
Então, conformar -se a impossibilidade de enxergar, ou seja, admitir que a maior parte do que existe é impossível de se ver, é crucial para a vida.

A possibilidade de enxergar nos permite uma série de pistas, mas ao mesmo tempo nos cria algumas armadilhas, tamanha é a dependência geral para o sentido da visão.
No fim, o grande problema é a dependência, seja do que for. Por isso, creio, a atividade marcial nos convida a além de enxergar o que é possível ver, perceber o que não é possível ser visto; normalmente o que não é visto está oculto através da imobilidade.
Mesmo assim, não basta saber que a maior parte das informações está oculta. É preciso um grau maior de refinamento, este grau diz respeito a sistema.
Quando iniciei minha prática, via meu nome no quadro de membros no primeiro domínio do sistema, Siu Nim Tau. Várias vezes me perguntei quando tempo levaria para chegar ao último nível do sistema, e, por quantas coisas eu teria de passar.
Por sorte, eu não fazia ideia do que eu teria que passar. Não por ter passado por experiências absurdas ou impossíveis de viver, mas por não ter ciência do preparo que Si Fu iria me fornecer. Ainda que por diversas vezes. eu tenha visto as listagens dos níveis mais avançados, não saberia perceber o invisível do que estava sendo demonstrado.

Hoje eu tenho acesso ao último domínio, exatamente por isso, dariamente, sou impelido a acessar o primeiro. Por uma razão simples:
Aprendi ao longo dos anos que Kung Fu diz respeito a discrição, então, quanto menos movimento, mais Kung Fu está sendo demonstrado.
A sequência do Siu Nim Tau é a que menos demonstra movimentos, ao mesmo tempo, é a semente para todas as outras.
Mas, no fundo, não falo apenas de pouco movimento, falo de fazer pouco e extrair muito falo também de sistema. Há pessoas que são respeitadas por sua habilidade marcial, há pessoas que são respeitadas pelo ser humano que é.
Ha pessoas que são reconhecidas pelos movimentos técnicos, há pessoas que são reconhecidas pelo seu nome.
Já ouvi falar de pessoas que são respeitadas pela agilidade do seu punho ou potência de sua voz, também ouvi dizer de pessoas que desarmam pelo olhar.
No fundo, o nível, ou o que e visível não importa. O que importa é o que se faz dele.