
O Monastério Siu Lam é um local marcado por uma extraordinária diversidade cultural e filosófica. Com isso, quero dizer que seus limites abrigavam uma variedade de práticas, algumas típicas de um monastério, outras nem tanto. Além das práticas espirituais comuns a esses ambientes, no caso de Siu Lam, havia espaço para ateus, diferentes correntes filosóficas, e até mesmo a presença de mulheres. Foi nessa rica mistura cultural que surgiu o que hoje conhecemos como o Sistema Ving Tsun.
Portanto, é perfeitamente possível praticar este sistema de maneira semelhante à vivência no monastério, sem a necessidade de um vínculo rígido com qualquer vertente específica. O essencial é a convivência pacífica e o aprendizado mútuo.
Por isso, vemos na maioria dos Mo Gun referências a diversas culturas e acesso a uma ampla gama de saberes. Acredita-se que, assim, o praticante terá melhores condições de trilhar seu próprio caminho e se aprofundar nos conhecimentos que mais lhe interessam. Para além disto, há a cultura da família Kung Fu ao qual o praticante está vinculado; como não existe um caminho único a seguir, parece mais eficaz explorar todos os preceitos individuais, permitindo que o praticante construa uma visão clara e sólida sobre o sistema, e, como não há só a referência do sistema, valer-se da experiencia e aprendizado com seu próprio Si Fu, são as bases fundamentais para a constução de si mesmo, como um artista marcial.

Determinados ensinamentos do Budismo abordam a incompatibilidade do ser humano com certos aspectos da vida, um dos quais é o sofrimento. Em meu entendimento, o Budismo vê o nascimento como o início tanto das maravilhas quanto da perdição humana.
De acordo com essa visão, o “bebê vermelho,” ou seja, o recém-nascido, chega ao mundo trazendo consigo a pureza de simplesmente viver pelo ato de viver, sem qualquer conhecimento ou orientação prévia. No entanto, no exato momento em que percebe a mudança de ambiente — ao sair do útero para o mundo exterior — ele começa a sentir sensações novas e desconfortáveis, e então, sofre.
A partir desse momento, inicia-se o processo de “folhagem” (Ming Sam) sobre o que havia de mais puro em si. Ao longo da vida, essa pureza original se distancia cada vez mais, resultando em uma separação do estado original de pureza, conhecido como Pung Sam, ou “coração puro.”
Parece-me que meu Si Fu possui uma estrutura bastante eficaz no que diz respeito ao retorno dos praticantes a sua essência. Com seu cuidado com as palavraas, Si Fu sempre busca dizer o que precisa da forma mais adequada para isso, refiro-me ao uso específico das palavras e seu desdobramento subjetivo. Por exemplo, ele diz que uma pessoa que pratica um sistema marcial não é um artista marcial, mas sim, um praticante de um sistema. Para se elevar ao quadro de artista marcial, tal praticante precisa entender como expressar o saber comum a todos de sua própria maneira. Desta forma, espero concluir o texto.

A palavra “Desenvolver” vem do verbo latino “disvolvere,” que é composto por duas partes:
“Envolver”: Deriva do verbo latino “involvere,” que significa “enrolar” ou “envolver”. Involvere vem de “volvere,” que significa “girar” ou “enrolar”.
“Des-“: Um prefixo de origem latina que indica separação, negação ou reversão de uma ação. Em alguns contextos, ele pode sugerir a ideia de desfazer ou remover um estado anterior.
Assim, exponho minha expressão marcial. Mais do que aprender, acredito que o processo de crescimento pessoal envolve “desenvolver-se” — no sentido etimológico de desfazer-se de tudo que nos prende à vaidade, ao medo, à arrogância. Em última análise, o verdadeiro desenvolvimento é o retorno à essência, ao coração puro (Pung Sam), que é o objetivo final de toda prática marcial. Isso, para mim, é o que significa desenvolver-se, uma visão moldada tanto pela cultura em que estou envolvido quanto pela experiência compartilhada com meu Si Fu.