
Quando iniciei minha jornada no Kung Fu meu objetivo era tornar um grande lutador.
O que quero dizer é que gostaria de vencer qualquer oponente em combate.
Meu enfoque jamais foi o esporte, como o MMA. Mas sim, a habilidade marcial.
Aos poucos, a partir da experiência que vivi no Mo Gun( salão de Guerra), pude perceber que meu sonho precisaria de muito mais que vontade para ser realizado.
Isso aconteceu, pois invariavelmente, quando estava diante de um adversário eu sentia medo.
Então, iludido pelo senso comum, acreditei que se eu treinasse as técnicas poderia vencer meus oponentes.
Em alguns casos, bem raros, esta estratégia de fato me ajudou. Mas em nenhum momento deixei de sentir medo.
Notei, com o passar do tempo, que o medo jamais deixaria de me acompanhar. Mas eu poderia entendê-lo de maneira diferente.

“A essência das artes marciais é contrariar o consenso”. Esta frase é de Sun Tzu, famoso estrategista chinês.
Entendo que contrariar não é ser contra, mas entender de forma contrária, ou diferente.
A partir deste entendimento, notamos que o soco desferido deixa de ser uma ameaça.
Mas uma oportunidade de entendermos, através do risco iminente, e simbólico da morte, o porque de termos tanto medo de um golpe.
Seja ao desferí-lo ou recebê-lo.
A partir deste olhar, tive a oportunidade de apreciar determinados aspectos do Kung Fu onde estou imerso há tanto tempo, mas pouco pude apreciar.
Por exemplo, o que de fato são as armas nas artes marciais?
Entendo hoje que são instrumentos. Assim, qualquer coisa pode ser usada como arma, desde uma espada a um espanador.
Contrariar o consenso em alto nível de Kung Fu significa fazer uso de qualquer coisa da forma como for necessário, sem desrespeitar sua natureza.
A partir deste aspecto, a arte marcial ultrapassa o sentido de luta e se torna arte sob perspectiva marcial.

Como disse, iniciei a pratica do Ving Tsun com o objetivo de me tornar um lutador. Não entendia bem o que isto significava ou quão longe poderia chegar o entendimento deste termo.
No início do ano de 2020, vimos nossa vida mudar por conta de um novo o corona vírus.
Eu era uma das pessoas que estavam com medo, por isso, fui conversar com Si Fu.
Após me ouvir, ele questionou:
“o que você quer fazer?”
Notei que em todo meu discurso não disse ao Si Fu o que gostaria de fazer. Falei apenas do medo que sentia.
Não soube explicar do que eu tinha medo. Mais uma vez, fui iludido pelo consenso. Em outras palavras, estava com medo apenas porque o clima era de medo.
Si Fu me disse:
“Medo, é aquela sensação que temos por estar diante de um adversário, em guarda.
Exatamente por isso, nossa principal atitude deve ser também levantar a guarda. E estar disposto a entrar em combate sem correr riscos desnecessários.
Para um inimigo invisível a olho nu, guarda diz respeito a não colocar a mão no rosto.
Se manter distância segura das pessoas e principalmente lavar as mãos.
Atitudes simples que podem nos ajudar a manter a saúde e cuidar de quem está próximo.
A partir destes cuidados, monte sua estratégia, e assuma as consequências.”
Assim, entendi que lutar não significa necessariamente golpear ou ser golpeado. Lutar, diz respeito a estar de pé, em guarda. Independente da situação.
Sem duvida, esta perspectiva me ajudou a aprofundar meu entendimento das artes marciais.
Assim, rapidamente meu primeiro objetivo deixou de ter relevância em minha prática.
Hoje, penso que ser um “bom” artista marcial diz respeito a transpor a experiência vivida no Mo Gun para o meu dia a dia. E o contrário.
É desta forma que, com o tempo, o Mo Gun passa a ser sua vida e sua vida passa a ser seu Mo Gun.
Assim, fazendo da vida uma eterna experiência marcial, aumento minha zona de conforto sem jamais sair dela.
Creio que se sentir à vontade em qualquer cenário é a principal contribuição da pratica marcial.
Isto é o que busco hoje em dia.