Antecipação como maneira de preparo

Patriarca Moy Yat executa o Guerk Jong

Uma das características desenvolvidas pelo artista marcial é o preparo. Assim, diante de qualquer situações vivida no “Mo Lan” (Circulo Marcial) o praticante mantém a calma e a compostura. Sendo assim capaz de enxergar o desenrolar da situação, e a partir disto tomar a atitude adequada ao cenário. Para se chegar a este estado, é preciso dedicação em diversos sentidos. Sobretudo, dedicar-se a fugir do senso comum e a quebrar paradigmas.  Por isso, a dedicação a esse tipo de abordagem deve ser constante, sendo necessário, portanto, extrapolar o ambiente familiar do Mo Gun e integrá-la ao dia a dia.

Quando iniciei minha jornada no Kung Fu, recebi diversas vezes orientação do Si Fu sobre a importância de se preparar antes de iniciar qualquer tarefa. Demasiado ansioso, percebo hoje que meu entendimento na época era que o preparo era uma perda de tempo. Achava que, enquanto me preparava, estava desperdiçando o tempo que poderia ser usado na execução da ação. Por isso, acabava me atrapalhando na realização das tarefas. No fundo, eu estava envolto em um turbilhão de sentimentos e situações, e como não havia preparo, sentia-me sobrecarregado e incapaz de concretizar minhas intenções. Inclusive, achava que a vida sempre estava em ritmo acelerado e culpava o tempo por minhas frustrações.

Com Mestre Senior Julio Camacho e meu irmão Kung Fu André Guerra

Foi nesse contexto de ansiedade e frustração que o Si Fu sugeriu um protocolo de conduta que me fez repensar o processo. Na época, tínhamos que estar no Mo Gun às 08:00h. Como eu me programava para chegar exatamente nesse horário, sempre me atrasava. Chegando atrasado, deixava alunos esperando e começava meu trabalho mais tarde do que o planejado, o que fazia com que as demandas se acumulassem. A sugestão de Si Fu foi simples, mas transformadora: programar-me para chegar 30 minutos antes do início das atividades. Essa mudança foi genial, pois me preparava para imprevistos como atraso no transporte, esquecer algo e precisar retornar, ou até mesmo reorganizar meus pensamentos antes de iniciar o dia. Com isso, eu não apenas chegava antes do horário, mas também me preparava com folga para o dia. A vida passou a ser menos corrida, e eu aprendi a usar o tempo de maneira mais eficiente.

Essa experiência me ensinou que o tempo é igual para todos; a diferença está em como o utilizamos. A aplicação prática desse protocolo não só melhorou minha gestão do tempo, mas também minha qualidade de vida e eficácia nas tarefas diárias.

III Imersão na Vida Kung Fu do Clã Moy Jo Lei Ou

Reforço o que frisei acima, o preparo existe inclusive para o que não se espera. Chegar mais cedo, garante que eu esteja não só pronto, mas absolutamente disponível no tempo necessário. Em uma escala menor, de minutos, horas ou meses é simples entender qual o tempo necessário. Se o tempo passa a ser contado em décadas, as condições e variáveis são infinitas e imprevisíveis, neste sentido, é difícil se preparar para um fim específico, já que é mais difícil saber qual será o fim.

Neste caso, o que prevalece é a capacidade de expressar o Kung Fu em todas as situações, mesmo as imprevistas. Quero dizer, o preparo sugerido como protocolo de minutos não se trata apenas de chegar mais cedo, mas agir com excelência em qualquer cenário. Ou seja, não há necessidade de grandes habilidades ou recursos, mas sim, a capacidade de se antecipar para o que não se espera, mas por chegar antes há tempo hábil para ajustes.

Em cerimônias tradicionais, isso é profundamente trabalhado. Não necessariamente o promovido tem condições de acessar o domínio seguinte ou a condição legada por Si Fu. Exatamente por isso a promoção acontece: para que esta pessoa possa, intimamente, assumir o cargo que ainda é nebuloso, mas que, por atitude e desejo, torna-se claro a partir do momento em que se assume o papel. Muitas vezes, essa promoção pode gerar frustração, pois a pessoa acha que ainda não está pronta. Contudo, o próprio processo de assumir essa nova responsabilidade é o que a prepara para o domínio do novo nível. Ou seja, ao trilhar o caminho e enfrentar os desafios, o praticante desenvolve as habilidades e o preparo necessários para a execução daquela função.

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