
A dinâmica do Kung Fu nos convida a desenvolver a todo momento uma postura marcial.
Seja pelo nível de tensão que, claro, é adequada ao momento de cada praticante, ou pela proposta de olhar além do óbvio.
Quando saímos para comer, por exemplo, fica nítida esta proposta. Já que, sabemos, não vamos a um restaurante apenas para comer, mas sim para ter um momento de Vida Kung Fu.
A dinâmica de um restaurante chinês favorece todo este processo, já que a mesa é três vezes redonda. Isto faz toda diferença.
Alem disso, o Kung Fu propõe alguns protocolos, assim, a todo momento estamos atentos ao outro.

A mesa em um restaurante chinês é redonda por uma razão simples: não há posição de destaque a priori, por isso, se for o caso, cabe aos participantes evidenciar esta pessoa de maneira discreta.
Outra estrutura redonda, e, giratória, é onde o garçom posiciona a comida. Isto significa que o pedido não é individual e sim para a mesa.
Por isso, sempre é um Si Hing, ou seja, alguém que conheça as pessoas e a dinâmica da mesa chinesa a pedir, desta forma garantimos que o pedido contemplará todos os gostos e não vai haver desperdício de tempo com pedidos individuais.
Por último temos o prato, este é individual. Note que a ordem em que apresentei a estrutura foi do macro para o micro, por isso, entendemos que o mais importante é o todo.
Neste dia, estávamos em um seminário com o Si Gung, que é o Si Fu de meu Si Fu, Grão Mestre Leo Imamura, ele estava diante de mim na mesa.
Como sempre digo, a todo momento a Vida Kung Fu nos propõe uma atitude objetiva e discreta. Mas nem sempre estamos atentos a ela.
A escolha do lugar foi curiosa, minha estratégia era ver onde Si Gung iria sentar, Si Fu certamente sentaria próximo, assim, eu poderia escolher um local um pouco mais distante.
A razão disso era não cometer nenhuma gafe na frente do Si Gung, e, na minha cabeça, envergonhar o Si Fu. Até porque, eu tinha na época pouca experiência em restaurante chinês.
Acontece que quando entrei estava próximo demais de Si Fu e Si Gung, como eles rapidamente sentaram ficou uma cadeira vaga exatamente ao lado do Si Fu e na frente do Si Gung.
Um pouco desconfortável eu sentei, não havia outra coisa a se fazer.
Em seguida a comida chegou e todos se serviram. Eu estava tão tenso que estava travado, me questiono se inclusive respirava.
Com muita naturalidade Si Fu serviu Si Gung e a si mesmo. Como eu ainda estava travado ele me serviu.
Um dos protocolos no Kung Fu diz respeito ao mais jovem servir ao mais velho, por isso, achei a atitude do Si Fu estranha.
Mas, me serviu de alerta, eu precisava me destravar e viver aquela experiência.
Logo em seguida servi chá para o Si Fu, ele ficou me olhando mas eu não tinha entendido. Rapidamente ele pegou o bule de Chá e serviu o Si Gung.
Pensei: agora entendi. Passado um tempo, servi chá ao Si Gung e me voltei para meu prato. Si Fu me deu uma sutil joelhada, mais uma vez olho sem entender.
Outra vez, rapidamente ele pega o bule, agora serve a si.
Pronto, tinha de fato entendido. Eu precisava estar atento ao Si Gung e Si Fu. Deste momento em diante não deixei de servir os dois. Estava até satisfeito comigo mesmo.
Passado algum tempo, sinto um beliscão na coxa esquerda, olho para Si Fu com cara de bobo, ele continua comendo. Noto que os dois estão bem servidos, o que será que houve?
“Gui, você não vai comer?” Si Fu pergunta.
Só então notei que meu prato estava intocado. Simplesmente esqueci de mim.

Como disse, a mesa chinesa considera do todo para parte. Eu estava no fluxo contrário, uma das minhas preocupações era que eu não sabia segurar o Fai Chi, ou estava com medo de envergonhar meu Si Fu e só.
Mas, foi a experiência deste dia que me ajudou a estar atento as questões do todo, sem deixar de considerar minhas minhas próprias questões.
Neste dia, notei que a preocupação individual é pouco estratégica. Não importa a habilidade ou falta de habilidade do individuo, o importante é saber se diluir no contexto.
Mais que tudo, notei como o aprendizado pode ser dinâmico e sem palavras. Não tive uma aula de etiqueta Kung Fu, mas sim, uma experiência marcial.
Si Fu, em poucos gestos me mostrou isto, inclusive, me ajudou a refletir que todos os protocolos no Kung Fu são estratégicos, e, portanto, devem ser atualizados de acordo com cada cenário.
Protocolos não servem para definir conduta, mas sim, auxiliar o jovem praticante no entendimento do simbolismo do Kung Fu, em outras palavras, olhar além do óbvio.