Siu Nim Tau, continuação.

Siu Nim Tau, cenário propício para sua prática

O desenvolvimento marcial requer dedicação e habilidade para estar diante de desafios. A pratica do Siu Nim Tau, primeiro domínio do sistema tradicional, propõe, tão logo executada, o desabrochar da experiência marcial.

Contudo, não é raro o mal uso desta sequência de movimentos e, como consequência, a má interpretação de seus gestos ou seus “beneficios”.

Por isso, praticar em cenários distintos favorece o desenvolvimento, já que, na maioria das vezes, estar diante de algo novo nos permite vivenciar experiências inesperadas.

Cena do Filme ” O Grande Mestre.” O personagem de Patriarca Ip Man demonstra Siu Nim Tau em um cenário propicio para sua prática.

Siu Nim Tau, em meu entender, diz respeito a “verdade interna.” Por isso, esta cena fictícia exemplifica bem o que quero dizer.

A sequência de movimentos do Siu Nim Tau, apesar de possuirem razão em si, inclusive na ordem em que são apresentadas, no sentido mais profundo, são instrumentos da experiência marcial.

O que nos leva, gradativamente, a uma atitude mais madura diante de situações em que temos dificuldade de lidar, portanto, nossa atitude se torna marcial.

A “verdade interna” diz respeito ao quanto que temos de conhecimento do nosso próprio potencial. Por ser verdade, não há espaço para atrevimento ou subserviência.

É isto que permite o personagem lutar sozinho contra 10 pessoas, se ele soubesse que não seria capaz não estaria ali, isto é marcialidade.

Todo este entendimento, é claro, desenvolvi com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, de maneiras distintas.

Em uma delas, estávamos no Núcleo Barra, situado no condomínio Interlagos de Itaúna, no Recreio, Si Fu, eu e meu irmão Kung Fu Pedro Correa. Pedro tinha acabado de chegar, na época, estudávamos o domínio Mui Fa Jong.

Si Fu disse que iria embora mas orientou que praticássemos Siu Nim Tau e depois Chi Sau.

Já no inicio da prática Si Fu nos mostrou como fechar a mão, ela deve ficar bem apertada, toda a energia deve estar concentrada ali, a mão deve ficar maciça tal qual a uma bola de ferro.

Em seguida, Si Fu apagou todas as luzes,, fechou as portas e janelas do Núcleo. Por fim, disse:

“O Kung Fu está literalmente em suas mãos, não se permitam fazer menos que vinte minutos de pratica, não deixem de manter as mãos bem apertadas nem por um segundo, faça cada um a sua maneira, mas devem terminar juntos.” Depois disto foi embora.

Fiquei preocupado, e se o Mo Gun pegasse fogo?

É obvio que tínhamos as chaves, e a chance disto acontecer era pequena, este pensamento era só minha mente me sabotando, era uma desculpa que criei para sair correndo dali.

Passado alguns minutos, a sensação de sufocamento era tamanha que, estava sem forças para tensionar as mãos, parecia que meu corpo entendia que sua única função era respirar.

Naquele dia entendi a importância de oxigenar o corpo. Desenvolvi mais da capacidade de estar atento ao outro independente do desconforto, já que meu irmão Kung Fu ainda estava ali.

Mas, o que me gerou mais mais aprendizado, foi uma das ultimas frases que Si Fu tinha dito antes de sair:

“O Kung Fu está literalmente em suas mãos”

Claro que eu e o Pedro poderíamos simplesmente parar e combinar de dizer que fizemos como Si Fu propôs.

Aliás, eu sabia que Si Fu não perguntaria depois o que tinha acontecido, o que de fato aconteceu.

Kung Fu é uma pratica para adultos, ou para te ajudar a se tornar um adulto. Tomar decisões e bancar o processo faz parte do aprendizado.

Siu Nim Tau no Mo Gun, cenário propício para sua prática

Em diversas conversas com Si Fu, entendi que meditação diz respeito a estar atento ao momento e se aproveitar do fluxo. E que dentro da dinâmica marcial, a meditação está relacionada ao tencionar e relaxar ao mesmo tempo,

Por isto, praticar Siu Nim Tau na praia ou em meio ao transito, atrasado para algum compromisso inadiável devem ter o mesmo peso.

Siu Nim Tau deve ser practicado em grupo, mas também sozinho. Pois, só você vai saber seu nível ou o que quer atingir com o Kung Fu.

Em outras palavras, quando sozinhos, o que demonstramos de verdade interna?

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started