
Si Fu conta que certa vez, Patriarca Moy Yat, meu Si Taai Gung, termo similar a bisavô, fez uma pintura e pediu a opinião de meu Si Gung, termo similar a avô.
Si Gung disse que estava muito bom e recebeu uma reprimenda de seu Mestre. Ele teria dito: “Léo, não está bom. Mas, mais importante que a estética é o fato de estar pronto.
Boa parte de minha vida acreditei que arte era sinônimo de algo belo. E, que qualquer manifestação artística adivinha de um talento nato, portanto, para poucos.
Aos poucos entendi que arte é expressão pessoal. Neste sentido, o que define um bom artista é sua capacidade de se expressar de maneira genuína dentro do instrumento escolhido.
Contudo, o Kung Fu, enquanto arte marcial, vai além disto. Marcial lembra guerra, portanto, necessariamente, fala de um cenário desconfortável. Expressar-se genuinamente em um cenário crítico é o alto nível do Kung Fu.

O que define um cenário crítico é particular. Para mim, escrever foi um problema. A primeira vez que Si Fu sugeriu que fizéssemos os registros orientados fiquei muito empolgado.
Adoraria falar das minhas experiências, tinha inclusive um roteiro pronto para redigir. Confesso que não consegui construir um parágrafo sequer. Minha principal dificuldade foi transformar em palavras qualquer experiência vivida.
Estava tudo comigo, foi triste saber que possivelmente toda experiência morreria também comigo.
Sucumbi diante desta dificuldade, escondi-me. Em vez, de tratar dela ou escrevendo ou pedindo ajuda, resolvi dizer que tinha muita coisa para fazer; o que é verdade, e que, por isso, não tinha tempo para escrever. No fundo, a questão da falta de tempo não convence a mim, tenho certeza que também não convence aos outros.
Fazendo referência a prática física, cada vez que sentava diante da tela de um computador, me sentia de frente de um oponente que me zombava . Sabia que tinha potencial, meu medo, me fazia fugir dele. Cada investida era um golpe que eu tomava.
Fugi por alguns anos, mas o fantasma permanecia ali. A cada oportunidade ele aparecia cada vez mais feroz, ou, pior ainda, rindo de minha fraqueza.
Mais uma vez fazendo referência a prática física, notei que o oponente, no caso, a escrita, era apenas um espelho; uma amostra do que eu sou.
Por sorte, meu Sitaai Gung é uma pessoa de Kung Fu. Transmitiu a meu Si Gung sua perspectiva marcial.
Também por sorte, Si Gung teve sabedoria para apreender seu ensinamento, e, mais uma vez, transmitiu a seus discípulos.
Si Fu, por sua vez, teve a habilidade de guardar esta história por alguns anos, e, nos contou no momento propício. Esta história “me caiu como uma luva”, última ferramenta necessária para que de fato, feito um artista marcial, eu me enfrentasse.
“Léo, não está bom. Mas, mais importante que a estética é o fato de estar pronto”.
A partir desta frase, notei que quando escrevia eu não estava me expressando ou preocupado com o resultado final, mas sim, estava procurando vaidosamente me promover.
Pensava, ” e se o que eu escrever não for lido ou apreciado? como faço para que o texto fique perfeito? estes pensamentos invadiam minha mente, e, pior, congelavam minha ação.

Certa vez, ouvi Si Fu dizer que diferente de outras expressões artísticas, a arte marcial é a única que a medida que você se desenvolve na arte em si, necessariamente você se desenvolve enquanto ser humano.
Hoje, minha dificuldade em me expressar através da escrita é quase nenhuma, graças ao trabalho constante em minha página, e, auxiliado por Si Fu, posso dizer que sou um ser humano menos vaidoso.
Claro, a estética, que na verdade prefiro entender como refinamento, sempre está presente. Mas, hoje me permito, sem medo, ouvir das pessoas seus comentários e, a partir daí, me refinar enquanto escritor, e, ser humano.
No fundo, mais que saber se gostou ou não dos meus escritos busco, caro leitor, saber como que, através deles, pude contribuir com sua expressão pessoal. Se é que fui capaz de tal feito.
Outra frase do Si Fu que me ocorreu foi:
“Todos nós, que praticamos um sistema marcial, somos praticantes de um sistema marcial. Se somos artistas marciais, em outras palavras, se estamos dispostos a enfrentar nossas dificuldades e a nos expressar genuinamente através delas é outra história.
Entendo que, cada dia que deixamos de nos refinar, independente do “saldo” positivo ou negativo do dia, fracassamos. O que não necessariamente é um problema, desde que, o fracasso do dia anterior seja o estopim para a vitória, ou, em minha opinião, refinamento para dia seguinte.