Hábito

Com Mestre Senior Julio Camacho e Mestre Thiago Pereira. Então Unidade Méier

Lembro que antes de iniciar minha prática do Ving Tsun acompanhei Si Fu em diversas palestras. Tinha muita vontade de iniciar a prática mas pouca condição, sobretudo, financeira.

Na época, eu fazia natação por recomendação Médica, e, meu pai, meu responsável financeiro na época, estava muito resistente em financiar as duas práticas, por isso, decidi que iria parar de nadar para praticar Kung Fu.

Esta decisão não fui bem aceita em casa. Então, com meus dezessete anos, considerei este feito um exercício de Kung Fu. A partir deste dia me senti especial, simplesmente porque tinha conseguido o que queria, e, sobretudo me posicionado.. Se eu era capaz de praticar Kung Fu eu era capaz de qualquer coisa.

Visita a Patriarca Moy Yat, EUA

Entendo que, para Si Fu iniciar sua própria prática também não foi simples. Uma das razões, é o fato de seu Si Fu, Grão Mestre Léo Imamura, morar em outra cidade.

Já ouvi algumas vezes Si Fu contando que morou seis meses na Rodovia Presidente Dutra, fazendo referência a quantas vezes foi a São Paulo encontrar seu Si Fu.

Imagino que, por conta disso, Si Fu tenha desenvolvido a habilidade de tirar proveito de qualquer situação, mesmo as mais desfavoráveis. E, assim me orienta em minha jornada.

Alguns meses depois de meu inicio no Ving Tsun meu pai decidiu que não iria mais investir na minha prática. Este foi um momento estranho, realmente não sabia o que poderia fazer.

Mais uma vez tentei negociar o preço do Ving Tsun, mas, desta vez, eu não tinha nenhum valor para investir. Comecei a tentar negociar maneiras de contribuir com o Mo Gun sem ter que necessariamente fazer qualquer acerto financeiro.

Mas, nenhuma de minhas propostas fariam de fato diferença. Um dia, conversando com Si Fu ele me disse: ” Duas coisas não vão acontecer, uma é você não praticar porquê não tem dinheiro, a outra, é você não pagar porquê não tem dinheiro.

Esta foi a frase que me convidou a, de fato, iniciar minha jornada marcial. Entendi que quando ele diz que não preciso parar de praticar quis dizer que o Núcleo está disposto a investir em mim; quando disse que não vou deixar de pagar, me deixou desconfortável, me alertou que de maneira alguma posso ficar preguiçoso, achando que sempre teria aquela condição.

Neste dia entendi que a vida é repleta de ajustes, e, somente estando disposto a vivê-los somos capazes de ter a vida que queremos.

Despedida dos Líderes do Clã Moy Jo Lei Ou, inicio da família Moy Jo Lei Ou nos EUA

Um exercício mental que gosto de fazer é tentar imaginar como Si Fu se sentia indo ou vindo de São Paulo, de ônibus. Não há como saber com exatidão, mas suspeito que muitas vezes estava assustado, outras alegre e confiante. Imagino que, com o tempo, a única coisa que ele fazia era ir. Independente do sentimento, ele só ia. E assim, chegou até hoje.

Muito do Kung Fu do Si Fu foi construindo em momentos de viagem. E, graças a estas viagens Si Fu é responsável por introduzir em solo americano o Grande Clã Moy Yat Sang.

Esta é parte da história de um discípulo que não tinha como pagar sua prática, e hoje é Diretor Adjunto de dois Núcleos no Rio de Janeiro, e, de seu Si Fu, que possivelmente, somente pelo fato de morar longe de seu Mestre recomeça seu trabalho em outro país.

“Se você acha que pode ou não pode, em ambos os casos você tem razão”. Kung Fu me ensina a acreditar todo dia que posso. No fundo, a questão é o hábito.

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