
É comum, no início da prática do Kung Fu, o praticante se sentir inibido diante do Si Fu.
Creio que isto ocorra por usarmos uma referência externa ao ambiente marcial para saber como nos portar.
Normalmente, essa associação acontece a uma figura de autoridade ou de aconselhamento, como, por exemplo, um Juiz ou Padre.
Contudo, isto soa estranho, já que estamos falando de um termo criado em uma cultura distante da nossa, portanto, não há razão para fazer paralelos.
Por isso, que creio que a melhor maneira de se entender como ficar à vontade diante de nosso Si Fu é estar Relaxado e ser Gentil. Segundo Patriarca Moy Yat, isto é Kung Fu.

Não é raro ficarmos presos em determinada situação.
O curioso, é que, através da lente marcial, é possível perceber que basta relaxar que a “prisão” se dissolve.
Certa vez, Si Gung estava conosco no antigo Núcleo Barra que ficava no condomínio Blue SKY, Bloco A.
O dia estava frio, Si Fu me pediu pra fazer chá. Fui a cozinha e iniciei o preparo, com a água já quente resolvi deixar as xícaras e a água próximo ao Si Gung.
Depositei a água na xícara e fui buscar o chá. Exatamente no momento que me afastei Si Gung começou a beber a água. Achei curioso, será que Si Gung não queria o chá e preferia beber água quente?
Isso não seria um problema, cada um tem o direito de ter suas particularidades.
Por acaso, olhei pra o Si Fu. Pela maneira que me olhava percebi que me observava há tempo. E agora?
Poderia ser que Si Gung gostasse de água quente mas porque que Si Fu me olhava daquele jeito?
Resolvi sair do ambiente para ver se Si Fu me dizia algo por mensagem.
Fiquei um tempo e nada. Então, relaxei. Voltei a cozinha, peguei mais água e o chá.
Posicionei a xícara do Si Fu, deixei o sachê e depositei a água. Para o Si Gung, deixei mais água quente.
Por cautela, olhei para o Si Gung e vi que ele pegou a xícara, sorveu um grande gole e comentou: “Bem chinês”.
Imediatamente voltei para a cozinha e preparei mais água.
Em meu retorno, depositei mais água na xícara dele, mais uma vez bebeu de um só gole.
Pensei que tinha descoberto um gosto peculiar do Si Gung.
Satisfeitíssimo, me preparei para buscar mais água, olhei para o Si Fu com um sorriso contido,
esperando sua aprovação.
A experiência marcial e sua capacidade de simbolismo é Fantástica.
Nunca levei um tiro na vida, mas, ao olhar para o Si Fu, acho que posso dizer que fui, literalmente, fuzilado por seus olhos.
Aos poucos senti o ar faltando e o sangue quase que abandonar o meu corpo. Hoje, imagino como fiquei pálido naquele dia.
Travei, depois de alguns segundos pensei sobre o que deveria fazer, Si Fu não falava nada, apenas olhava.
Muito desconfortável me retirei da sala e rezei para a reunião começar logo, assim, não precisaria mais entrar.

Hoje, refletindo sobre o episódio, percebo algumas detalhes que na época não entendia.
Inteligência estratégica diz respeito a preparo, eu não podia esperar que Si Gung me esperasse trazer o chá já que a água estava disponível.
Entendi que a maneira que ele encontrou de me fazer entender foi beber, mais rápido do que o comum, o líquido depositado.
Como não fui capaz de perceber, Si Fu me “fuzilou”, ainda na proposta de me ajudar a entender, através da marcialidade ,que o que eu estava fazendo não estava dando certo.
Sobretudo, pude entender que a atualização constante é crucial. Acreditei que o que estava fazendo era a melhor estratégia, mas deixei de checar, a casa passo, o resultado efetivo.
Como eu estava tenso em estar no mesmo ambiente que Si Fu e Si Gung, não pude perceber estes detalhes.
É claro, eles poderiam ter dito isto de maneira direta. Mas, se assim fosse, esta experiência seria tão significativa a ponto de desejar contar para vocês, e sobretudo me marcar tão profunda e positivamente?