
Lealdade e fidelidade são conceitos distintos, cada um aplicável a diferentes tipos de relações. Na minha definição, lealdade refere-se à devoção e comprometimento com alguém que está mais experiente ou possui uma posição de orientação, como um pai ou mentor. Por outro lado, fidelidade envolve compromisso e apoio em relações horizontais ou laterais, como amizades ou parceiros.
Na cerimônia de discipulado, os rituais e símbolos presentes não apenas simbolizam meu compromisso com meu mestre, mas também refletem minha disposição de seguir seus ensinamentos e orientações como uma figura de orientação e guia. É um compromisso de honrar e respeitar os princípios transmitidos pelo Si Fu (mestre), reconhecendo sua sabedoria e experiência na arte do Kung Fu. A isso, eu chamo de lealdade. Contudo, percebo que essa definição precisa ser constantemente atualizada à medida que nossa relação evolui ao longo do tempo.

Ao longo dos anos de meu discipulado, vivi e continuo vivenciando diversas experiências. Durante esses momentos, recebo orientações e insights que me ajudam a crescer não apenas como artista marcial, mas também como pessoa.
Hoje, durante nossa caminhada, uma situação específica me fez refletir sobre minha lealdade.
Si Fu frequentemente me lembra que “morar em uma garagem não faz de alguém um carro, assim como dormir no Mo Gun não faz de alguém um Artista Marcial”. Por esta frase, entendo que o fato de fazer parte de uma escola de artes marciais, vestir o uniforme e praticar, ainda não garante a apreciação plena de todo o processo. É crucial exercer a atividade marcial a cada momento; para isso, as roupas, termos e espaços certamente ajudam, mas são camadas muito finas que por si só não garantem nada. O que efetivamente faz diferença é a postura do praticante, mesmo que metaforicamente ele esteja desprovido de tudo.
Na época, eu e um irmão de Kung Fu tínhamos o hábito de eventualmente dormir na escola, já que as atividades começavam cedo no dia seguinte. Certo dia, acordei mais cedo do que o necessário e decidi adiantar algumas tarefas. Como ainda era cedo, dobrei as roupas de cama e as deixei num canto para guardar depois. Também tomei a liberdade de ficar descalço e de bermuda. Pouco antes do início do dia, Si Fu chegou ao núcleo. Mesmo tendo acordado mais cedo e já estar trabalhando, havia roupas de cama, embora dobradas, espalhadas pelo espaço, e eu ainda estava de bermuda e descalço. Por isso, Si Fu questionou minha prontidão para o dia; neste momento, percebi que, apesar de meus esforços, ainda havia aspectos em que poderia ser mais leal aos ensinamentos recebidos. Gentilmente, ele me lembrou da necessidade de estar completamente presente e preparado, ou seja, uma vez acordado, efetivamente desperto.
Essa reflexão me fez perceber que a lealdade transcende simples obediência; é uma dedicação profunda à jornada compartilhada com meu mestre e à herança do Kung Fu que ele me transmite. Reconheço que, ao longo do tempo, essa relação não apenas fortalece minha capacidade física, mas também molda meu caráter e meu entendimento sobre disciplina e respeito.

Percebo que a falta de lealdade foi com a palavra que Si Fu havia me dito tempos antes. Ele já havia alertado que, estando no Mo Gun, estou em uma constante batalha e que, embora seja crucial descansar, não devo esquecer o propósito de estar ali. Fazê-lo repetir o que foi dito fez com que eu enxergasse que, de maneira diferente, cometi o mesmo erro.
Ao mesmo tempo, percebo a relevância da relação vitalícia. O tempo amadurece a percepção e, justamente por conta da longa relação com Si Fu, pude perceber as vezes em que não estou tão atento quanto gostaria ao que ele diz. Não é raro ele ter que repetir as mesmas orientações para mim; por isso, questiono-me até que ponto estou sendo verdadeiramente leal.